quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Colher flores

Vou me contentar enfim,
apenas em olhar.
Pois é só o que posso agora...

Também acho, suspeito
que é bem o que eu quero.

Talvez eu mesmo não queira.
Talvez é o que, de fato, eu possa.
Nesse maldito momento.

Fica, então, um mote convidativo,
sair para ver as curvas,
os rostos, as formas
cheirar o perfume,
sorrateiramente, de leve,
sem constrangê-las
sem machucá-las.
Nunca, no entanto, abordá-las, colhê-las em seu encanto.
Seria dupla a violência. Nos dois sentidos.

Assim, não colho mais flores neste jardim ingrato, maldito.
Nem sei se deveria tê-las colhido um dia.
Vou ficar apenas olhando, observando,
andando para ver, enxergar, vislumbrar, desejar, cheirar...
Para, só depois, cansado e desanimado,
retornar.

Só então me prostrarei, sentado, sempre,
sempre na esperança do passar dos minutos,
De minutos que passam trazendo o novo, a nova ilusão.

Desejarei que não haja mais saídas,
Para que sempre, eu cansado,
repouse.

Finalmente.
Após infindáveis passeios no jardim.
Após anos de desejos circulares que redundaram apenas desilusões, dor, e sofrimento,
Que cesse o meu desejo,
Este inferno constante, insaciável.
Este que é mesmo a dor de existir.
Que meu ser e meu eu entranhe definitivamente no infinito.
No nada absoluto.
E que de mim, não reste mais nada que brisa,
vento, e aparente lembrança,
sempre ruim,
assombração.

José Servilino - 7/2/08